18 September 2017

CONHEÇA O TITIO MARCO ANTONIO, por Bruno B. Soraggi


A única cara de Marco Antonio Abreu que você talvez não conhecesse até chegar a esta página é a dele próprio. Pois esteja apresentado: este aí em cima é o rosto do dublador e locutor de 42 anos, nascido em Santos, que dá voz às versões brasileiras de personagens como Patrick, amigo de Bob Esponja, e Rick Grimes, o xerife do seriado "The Walking Dead".
Esta também é a face de 'Titio' Marco Antonio, apelido com o qual ele apresenta o programa "Alternativa Kiss", que de segunda a sexta embala a hora do rush de muito roqueiro paulistano pela rádio Kiss FM. "Ficou decepcionado?", brinca o ex-gótico, que na juventude se vestia de sobretudo preto em pleno litoral paulista, enquanto seleciona as músicas e as notícias que apresentará ao vivo.
"São cinco horas e dois minutos. Está começando mais uma edição do 'Alternativa', com muito rock'n'roll", anuncia ao microfone ao mesmo tempo em que seus dedos com anéis de caveira mexem em botões para ajustar o volume e chamar vinhetas. "Veja que eu frito o peixe, olho o gato e assobio. Me sinto um polvo", diz.
E assim será pelas próximas duas horas, intercalando músicas, falatório desenfreado e brincadeiras com a repórter Rosangela Alves, com a qual se comunica por "walk-talk" enquanto ela sobrevoa a cidade para falar sobre a situação do trânsito ("Cadê você, Rô? Bateu a vassoura no helicóptero e sumiu?").
Abreu ganhou o apelido no início de sua carreira na emissora, há quase 15 anos, quando tinha um programa em que tocava apenas clássicos do rock. "Todo mundo na rádio tinha apelido: o Morcegão, o Holandês Voador... E como no meu programa só tinha Bob Dylan, Neil Young e essas coisas, dava a ideia de um tiozão com uma vitrola", conta.
Mas seu ganha pão atual vem das muitas horas que passa em estúdios fazendo gravação de voz e dublagens, ofício no qual deu os primeiros passos nos anos 1990, quando estudava jornalismo em Santos.
"A TV a cabo estava chegando ao país", diz. À época, fez vozes para os canais Discovery e E!. Na sequência, dedicou-se a um curso de dublagem. Depois, já estabelecido em São Paulo, matriculou-se no curso de teatro da escola Macunaíma para tirar o registro de ator, necessário para exercer a profissão de dublador. Enquanto isso, trabalhou como repórter na TV Cultura e na rádio Eldorado.
Já em contato com grandes estúdios de dublagem, como o extinto Álamo, ele começou fazendo "voz de placa" –que traduz textos de sinais de trânsito– e passou para personagens coadjuvantes. Em 2000, surgiu a chance de fazer um teste para "um desenho esquisito".
"Quando cheguei no estúdio, achei uma coisa absurda. Era uma esponja dentro de um abacaxi no fundo do mar e uma estrela gorda e retardada... Tudo meio lisérgico, né?", diz ele sobre o primeiro contato com a animação "Bob Esponja Calça Quadrada", que hoje adora. Inspirando-se em Zé Colmeia, Abreu, então, virou a voz oficial do personagem Patrick. "Acabou sendo um abre-alas para mim."
Agora, já perdeu as contas de tudo o que fez como dublador. "Acho que 80% do que faço eu não sei o que é ou onde vai ser exibido. A gente chega no estúdio, grava e já vai pra outra", explica. "E eu não catalogo tudo", afirma, lembrando de um evento em que fãs do game "League of Legends" pediram para ele imitar a voz do personagem Lucian, que Abreu não lembrava ter gravado. "Passei vergonha."
Ele também leva seu jeito sincero e irreverente para as suas redes sociais, nas quais posta fotos dos filhos, Nicolas, 1, e Ágata, 4, –nascidos de seu quarto casamento– memes e opiniões políticas de esquerda, o que já gerou rusga com o músico Roger, da banda Ultraje a Rigor.
"Tenho postado menos. É desgastante. Mas tem coisas que não consigo. Não dá para ser 'isentão' o tempo todo", diz o dono dos gatos Mel, Paco, Ozzy (em homenagem a seu ídolo Ozzy Osbourne) e Fidel ("outra homenagem clara", brinca).
"Durante as duas horas em que apresento [o programa no rádio] eu poderia estar em estúdio fazendo mais dublagens, o que seria financeiramente mais vantajoso. Mas o rádio é meu berço e tem o lado emocional. A vida não pode ser só um taxímetro rodando", diz.
19h. "Chegamos ao fim de outro programa. Um grande abraço e continue com a gente." E aciona a vinheta.

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