19 July 2011

C'EST LA VIE

CÉST LA VIE, um conto de Ana Veet Maya ( escrito em 2008)
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Perdida entre as fileiras coloridas da colorida livraria da Paulista, nem se deu conta daquele par de olhos negros que a fitavam admirados.

-Para quem gosta de ficção, indico este.

Belo homem, alto e musculoso, cabelos negros, um olhar másculo. Tatuagem no braço que ela vislumbrou por uma nesga da manga da camisa.


O tremor que correu por seu corpo, a voz não denunciou.

- Obrigada. Você é muito gentil.

- Por nada. Muito prazer. Artur.

- Muito prazer! Maria.

Trocaram sorrisos, biografias, bibliografias, endereços de todas as redes sociais.

Uma afinidade imediata.

Um toque de mãos na despedida, um lampejo no olhar de Artur:

- Ela será minha.

Uma emoção no coração de Maria:

- Eu vou me apaixonar!

O dia encontrou Maria acordada, rosto branco, olheiras profundas.

Longa noite, sua mente divagara excitada, lembrando do olhar experiente que atingira seu coração.

Mulher bonita e assediada, escolhera estar só a aceitar relações casuais. Bem ao contrário de suas amigas que gostavam de “ficar”.

Mas a simples lembrança de Artur fazia Maria se sentir ofegante, com o coração palpitando e cheia de desejo!

– Detesto essa modernidade nas relações, essa falta de compromisso! Que gente superficial!
Falava isso para si mesma, como para se convencer do fato.


Uma semana de longos chats.

Ele pensava:

- Que mulher interessante! Vou "traçar" de primeira.

Ela sonhava:
- Que homem fascinante! Quero que seja meu namorado!

Maria focava em outros assuntos e no trabalho. Sem encontros, sem beijos e abraços.

Mas como lidar com pensamentos tão lúgubres e pecaminosos?

Ficava ruborizada com seus toques secretos, silenciosos, contidos e encobertos no segredo de sua cama de solteira.

- Ah se ele pudesse me ver! Veria que de santa, só mesmo a aparência...

Seu corpo de mulher vibrante e apaixonada tremia.

Afinal, sentia a falta do toque masculino ao qual se negava por princípios, educação, filosofia, religião...

- Mulher santa faz isso. Mulher fácil faz aquilo.

Crescera ouvindo sua mãe, sua avó, suas professoras, o mundo inteiro dizendo isso.

Só que sempre percebera que as que não eram assim tão “santas”, pareciam mais felizes e joviais.

- Será que fui enganada a vida toda?

Abriu uma brecha em sua mente para refletir sobre sua educação.

Seu desejo interior era de se entregar. Tentar o novo. Arriscar!

Queria os tais orgasmos. Será que isso existia mesmo?

Mas para ela não bastava sentir prazer.

Aprendera a possuir e ser possuída...

Queria ter certeza, sentir-se segura, ter um porto, acordar ao lado do seu amor na manhã seguinte e por muitas manhãs.

- Merda! Nada é mesmo perfeito nesse mundo!

E ria de seus pensamentos libidinosos.

Ele, o macho prepotente e seguro, fazia bom marketing da sua masculinidade e sua potência sexual.

Nunca perdia uma oportunidade.

Marias e seus belos sonhos cor-de-rosa... Meninas e “senhouras” que sempre esperam o príncipe encantado...

Por vezes não conseguem enxergar que muitos já viraram sapos e vivem apenas pra espalhar suas sementes nos intervalos dos jogos de futebol e das cervejas com os amigos.

Finalmente marcaram o primeiro encontro.

Maria foi ao cabeleireiro e até comprou perfume novo.

Usou pouca maquiagem. Curtia a naturalidade.

Ele não dirigia. Odiava o trânsito de São Paulo.

Ela também odiava. Mas enfrentar o trânsito na hora do rush não era nada; afinal, iria ao encontro do amor!

Maria dirigia automaticamente, sentindo-se atordoada e com seu coração na boca.

- Ah! Lá está ele. O que vou falar? Uma semana de papo e estou tão envolvida!

- Artur? Artur!

Ele a viu e sorridente se dirigiu ao carro.

A porta se abriu e foi agarrada com firmeza e vontade, por duas mãos imensas de boxeador na plenitude de sua forma.

O "boa noite" já foi um beijo roubado, totalmente possessivo, longo e cheio de promessas.

O ato pegou Maria completamente desprevenida. Cheia de surpresa, sentiu sua vista turvar e se esqueceu da razão.
- Valei-me minha Santa! Que homem é esse que me tomou e eu não falei não?

- Vamos pro Motel?

Homem maduro, racional, franco e direto.

- Pra que segurar a vontade? Falou ele.

Ela não respondeu. Estava com taquicardia.

Quis ganhar tempo.

Foi dirigindo e seguindo apenas o fluxo dos automóveis.

Seus joelhos tremiam. Estava roxa e seu peito arfava.

As mãos dela no volante.

As mãos dele nos peitos dela.

- Que audacioso! Pensou excitada.

E quase bateu o carro!

- Acho que estou possuída pelo demônio!

- E se eu fizer amor com ele agora e ele não me quiser mais?

Desviou o carro para evitar uma trombada de frente.

Ele apertou ainda mais o cinto de segurança e continuou a olhar pra ela divertido.

Parecia que adivinhava o que estava pensando.

- Mas não acredito. Ele parece ser tão sincero. Será que mente?

Seu pensamento foi interrompido pela voz grave de Artur:

- Se quiser comer um lanche, siga em frente. Se quiser que eu te coma, vire à direita.

Ela engoliu em seco e virou à direita.

Até hoje não sabe dizer como chegou ao quarto.

Bateu com a cabeça no hall de entrada. Tropeçou na escada. Torceu o pé.

Lembrou-se de pegar a camisinha e foi seu último pensamento.

Entrou num processo de êxtase.

– Ele é um mestre! E se entregou finalmente ao delírio...

Suaram todas as toxinas.

Aqueles braços definidos deslizavam sobre seu corpo macio e envolvente.

Entregara-se ao mestre do amor.

Sua boca pedia água. Mas seu corpo pedia mais.

- Não podemos dormir baby. Amanhã trabalho cedo!

- Desgraçado! Pensou e se calou.

Um banho rápido e o pagamento. Despesas divididas como ele sugeriu.

Ela queria namorar.

Ele só queria chegar em casa e jantar novamente.

Ela errou o caminho de casa.

- Seu guarda, seu guarda? Como faço pra chegar à Anhanguera?

- Moça? Aqui é muito perigoso! O que a senhora faz sozinha num canto destes?Vou acompanhá-la até o anel onde deverá fazer a conversão.

- Será que errei em fazer amor com ele no primeiro encontro?



Absorta em seus pensamentos apaixonados nem reparou o olhar azul-esverdeado do jovem guarda que a admirava cobiçando...

- Amanhã mesmo comprarei aquele GPS maldito! Pensou.

No rádio começou a tocar sua música predileta.

Sem dar bola pro guarda seguiu pela Avenida.

Talvez um pouco menos certinha, quem sabe até um pouco marginal? Mas viva!

- C’est La vie!

Sorrindo, apenas acelerou.
CÉST LA VIE, um conto de Ana Veet Maya ( escrito em 2008)





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