23 September 2009

SOBRE O NADA

por Ana Veet Maya

Um pouco mais do azul
Pitadas de bom humor
A voz do amigo na porta
Azeite grego na endívia
A fumaça se perde no além
É prece que sobe ao céu
E eu contemplo o nada...
Brancas nuvens que passam
e mostram que há movimento
O canto do hino relembra
Saúda minha liberdade.
Há calma: o gato não mia
Só olha, escuta, indaga
Silêncio que a alma repousa.
E o corpo se embala ainda
Palavras se calam perdidas
E o sonho... que sonho é esse?
É mel e escorre da boca
Lambuza o peito gelado.
Na noite eu brinco, disfarço
E esqueço que vou acordar...

17 September 2009

PROMESSA

por Ana Veet Maya

Hoje não vou esperar
Nem olhar tua fotografia
Vou encher a cadeira vazia
E nem sequer pensarei em ti.
Prometo não vou chorar
Nem mesmo vou me lembrar
Do doce sabor do teu beijo
Não sentirei nem desejo
Da lembrança cruel do teu toque.
Hoje prometo viver
Somente o instante perdido
Da paz roubada do além.
Hoje não quero ninguém.
E vou colorir os meus olhos

E meu coração tão cansado
De tudo esperar paciente.
Hoje serei só contente
Sorrirei cantando pro céu
Andarei meus passos bem cegos

Pra nada poder encontrar
Nada que tenha perdido.
Quero as lembranças no fosso
Ao lado da tua memória
Que enterro profundo na terra
Nas entranhas do morto passado.

14 September 2009

DE BEM COM NOSSA HUMANIDADE

por Ana Veet Maya

As perdas que temos ao longo da vida e o sofrimento que acumulamos, podem desenvolver em nós uma necessidade imensa de fazer tudo sozinho, mostrar ao mundo inteiro que somos autosuficientes e não precisamos de mais ninguém porque nos "bastamos".

Independência, autosuficiência, autonomia, são de fato qualidades. Mas não devem ser barreiras para a comunicação e o ato de compartilhar, socializar.



Num mundo de competição total, o valor do outro pode te causar ciúmes, inveja, sentimento de inferioridade. E se o outro souber vender melhor suas próprias " qualidades", você poderá perder o seu lugar para ele... Parece mesmo que os que brilham mais,conseguem as melhores posições e aparentemente, são sempre os mais bem sucedidos em tudo.

E é nessa base de competição que pode se desenvolver o nosso orgulho, como uma forma de auto-defesa.

Quando temos dificuldade em delegar, partilhar, compartilhar e queremos fazer sempre tudo sozinhos, sem pedir ou mesmo aceitar ajuda, buscamos superar os nossos limites e nos sentir  fortes.

E queremos essa sensação de força, exatamente porque por dentro, talvez nos sintamos ainda fracos, frágeis, vulneráveis.

O que já é, não precisa ser testado nem provado. Já é. Fim.

O orgulho vem disfarçado com outros nomes : eficiência, certeza, firmeza, independência, competência . . .

Você pode ser bom e fazer bem e ao mesmo tempo, compartilhar, delegar, dividir, vibrar e estimular o brilho do outro também! Não precisa ocupar nenhum pódio. Não precisa competir.

Quem sabe possamos parar um pouco e pensar em :

1- Não dar tanta importância para aquilo que enxergamos como verdade. Tudo e nada é verdade. Podemos abrir espaço para outros caminhos e formas de pensamento e ação.

2- Ter consciência dos fatos, mas sem o julgamento eterno, "isso é certo", "isso é errado". Haja espaço para a dúvida!

3- Parar com o sentimento de fatalidade. Tudo é mutável e passageiro.

4- Não ter o foco apenas no problema e no erro. Vamos focar os acertos.

5- Desenvolver a coragem para mudar, nos libertar de padrões de comportamento viciosos e poder testar conceitos novos .

Toda vez que fazemos isso, estamos enfrentando o orgulho, diminuindo o nosso ego e aceitando a nossa HUMANIDADE. E aceitar nossa HUMANIDADE significa :

1- PODER ERRAR, porque errar é DE FATO, humano

2- PODER SOFRER, CHORAR, sentir RAIVA e todos os outros sentimentos que todos os HUMANOS sentem, sem que isso nos deprecie, nos torne mais fracos ou menos valorosos que os outros.

3- PODER SENTIR PREGUIÇA, DESÂNIMO, tristeza, sem receber de imediato um rótulo de doente mental ou maluco beleza, porque todos podemos nos sentir melhor ou pior num determinado dia ou situação. Nada é mesmo permanente.

4- E por fim, PODER NÃO SER PERFEITO, porque afinal, a perfeição é DIVINA . . . ( imaginou sua vida sem os desafios. sem as diferenças para superar? Seria muito monótono!)

Ao aceitar a nossa humanidade, sofremos muito menos, nos tornamos mais saudáveis e felizes.

Se somos mesmo feitos a imagem e semelhança de Deus, a perfeição chegará a seu tempo.

Fiquemos portanto de bem com a nossa humanidade!

( agradeço a inspiração do texto, ao chat profundo e enriquecedor com o amigo Camilo do México )

11 September 2009

É NOITE

por Ana Veet Maya

É noite.
Olho para todos os lados, mas não tenho olhado a terra.
O céu me atrai.
Minha mente divaga ao contemplar estrelas.
A beleza, o brilho, a distância, o mistério da noite...
E ele - sempre imenso e profundo - o céu: cenário essencial do teatro da noite... 
O céu: a testemunha silenciosa de todos os encontros e despedidas.
Lágrimas, desespero, bebedeiras, promessas, desesperança, tentações, prazeres, sensações. 
Todas as sensações. 
Parece que os grandes prazeres são reservados para a noite.
Às vezes tenho medo da noite.
Meu medo só não é maior do que a minha atração.
E as paisagens se sucedem.
Sombras e luz.
Mas são em maior número as sombras... Porque as luzes fogem da noite.
A noite gosta do vermelho do veludo e do toque do cetim. 
A noite gosta da seresta e muita festa.
Será que a noite gosta de mim ?
O farol de um carro à distância. 
E já passou.
Vagalumes na estrada. 
O cheiro da dama-da-noite. 
E já passou também.
Tudo passa muito rápido... 
Eu eu nem sentí o dia passar.
Posso fazer minha vida inteira caber num dia.
Mas a noite é incomensurável...
O riso dos meus filhos no banco de trás do carro.
O latido do cachorrinho.
Aquela casa com chaminé.
A fumaça nos mostrava a vida que buscava o céu.
O forno-a-lenha, o café, um cheiro de conforto e cotidiano. 
E eu cigana, minha família de sangue e a família inteira do mundo.
Somos todos viajantes da noite.
Novos caminhos, novas culturas, faces, preceitos, preconceitos, acidentes de percurso, as curvas do caminho e as retas. 
Sim. 
São muitas as planícies. 
Nesta vida superei barreiras e ultrapassei fronteiras.
Um amigo me diz que vive agora a sua solitude: solidão com atitude.
A noite estimula atitudes.
Mas muitos, à noite, só querem entorpecer seus sonhos.
Eu gosto de clarear a noite.
Com neon. 
Com frisson. 
Com a alegria de quem gosta de partilhar.
A noite inspira e encobre risos e lágrimas.
Vivas à noite, mãe das esperanças, babá dos sonhos que insistem em nascer. 
Palmas para a noite que acalenta novos amores e abriga poetas chorosos dos amores perdidos.
Glórias à noite que deságua no dia, que deságua na tarde e deságua novamente na noite, destino certo de todos os que amam a luz.
É noite. 
Beijo o invisível que vê o meu coração...




8 September 2009

CAPS AD PENHA

por Ana Veet Maya

Os sonhos ainda não acordaram totalmente.
Bocejo e olho o céu.
A nuvem escondeu o sol. A semana começou chorando.
Dirijo para o trabalho e encontro pessoas sonolentas pelo caminho.
O fusquinha vermelho não consegue quase subir a ladeira da Penha.
Do alto a igreja me observa resplandecente.
Deixei o Lundy, o Temaki e a Matilda sozinhos.
Até cães e gatos se entendem. E por que nós não nos entenderíamos?
Abro o portão do meu trabalho com a alegria de poder começar mais um dia útil.
Os pacientes já aguardam o doutô Guilherme, meu amigo Bubby, o Chef Guilherme Tell!
Foi o doutô que pagou o nosso pãozinho da manhã.
Sete horas.
Sentamos juntos e tomamos nosso café. 
Somos uma família!
Não rezamos o Pai Nosso, mas nossa amizade é uma forma perfeita de oração.
Irene fez o café e ao lado de Elaine começa a limpar todas as frestas e cada vãozinho escondido.
Graças a elas, o ar entra.
Silvana atende com boa vontade e dedicação a todos os pacientes.
Ela está preocupada e cuidando dos dentes.
Ela é bonita e tem um sorriso lindo.
Anda meio triste por causa do amor.
É mesmo muito difícil dizer adeus, Silvana.
Bruna, a loira e jovem guardiã de nossos documentos e nossa vida administrativa, alimenta nossos peixinhos. 
Eles enchem de vida este ambiente hostil, onde as neuroses, as manias, as psicoses e todas as pequenas e grandes loucuras se mesclam com a loucura do cotidiano de cada um de nós.
A Joyce ficou falando comigo no MSN o final de semana inteiro, sempre bebendo sua Salton... 
Gosto dela porque quando conversamos, seu coração chega sempre bem pertinho do meu.
Daqui a pouco chega a doida e querida Dudu, a nossa "chefe".
Devagarinho, com a sabedoria de quem tudo sabe e nada vê, ela trouxe paz e amizade para toda a equipe. 
As pessoas se sentem mais tranqüilas, apoiadas, sem tanta pressão. 
Afinal, já que não há dinheiro, há que se ter prazer.
Não temos aumento há mais de dez anos.
Atendemos a dependentes químicos que nos procuram em surtos medonhos.
A Sueli atende comigo os jovens infratores.
Estamos escrevendo um dicionário da gíria dos jovens manos para conseguir entendê-los melhor.
Sueli consegue compreender a todos muito bem. Uma menina ruiva, doce e responsável.
Aprendo muito com ela.
O meu querido amigo Guilherme trouxe o CD de Ila Maria.
A música maravilhosa de filmes do passado inunda de poesia o nosso ambiente.
Parece que só ele e eu conhecemos essas músicas e esses filmes.
Estamos envelhecendo. Acho que só nós dois estamos, Bubby! hehe
Quero morrer fazendo arte ! Porque a arte salva!
Daqui a pouco a Rosana usará esta sala e essa música calará e dará lugar a desabafos e lamentações sem fim.
Tomara que nenhum paciente venha sob efeito de nenhuma droga ...
No último surto, machuquei meu braço segurando a fechadura para que nosso paciente não irrompesse com violência o salão de atendimento e não quebrasse a televisão que ganhamos de doação do meu amigo Sérgio Big.
A maçaneta da porta quebrou exatamente no momento que o segurança chegou, mas a televisão ficou intacta. Uff!
A Rosana é minha mana de escorpião.
Menina sabida, doce e oportuna. Ela anda bonita de fazer gosto. Comprou seu apartamento. Novos projetos, nova caminhada. Boa sorte, Rosana!
A mana Cris Viscome me faz uma falta danada. Gosto tanto dela!
Trabalhamos em períodos diferentes. 
Ela é educadora como eu, tem uma paciência infinita com todos.
Quando surtamos juntas, brigamos sem parar. Mas nos amamos de paixão!
É tudo muito divertido.
Ao lado de seu marido motociclista, ela atravessa corajosamente o mundo.
E esse coração cigano ensina muito a todos nós.
A Inês se adaptou muito facilmente ao nosso trabalho e integra bravamente nossa equipe desde que a querida Marta se aposentou.
Quase trinta anos de trabalho social ao lado dos casos mais tristes, homens e crianças de rua, dotaram minha amiga Inês de um positivismo, uma paciência e uma coragem impressionante para enfrentar o novo. Ela nem sabe direito, mas a admiro muito.
O Dr.José Carlos, nosso clínico geral, ensinou-me muito sobre o Chile. Um verdadeiro guia.
Ele trata de fato os pacientes e se preocupa, pesquisa e acerta. Roqueiro esse dotô!
Saudade da Ivana e seu riso solto. Seriedade precisa. Que pena que se afastou de nós. Mas a saúde em primeiro lugar.
A Juliana e o Júlio somam com esta equipe de doidos e parecem que começam a entender esses nossos mecanismos e engrenagens que necessitam de graxa, mas não há graxa! Nem azeite... Cacetada. 
E agora dotô?
Falta muita coisa aqui: segurança, material, funcionários, apoio à saúde mental...
Mas há a beleza da Letícia.
E há a força severa da Sandra.
Como é bom conviver com pessoas do bem.
Só mesmo pessoas especiais para trabalhar com tanta miséria, doença, desassossego e desilusão.
E eu iludo a pobreza e disfarço a tristeza, fazendo arte, pintando a vida, escrevendo os contos que algum dia falarão por mim.

7 September 2009

PARA NINAR O MEU QUERIDO AMOR

por Ana Veet Maya

Eu hoje cantarei
Um canto de paz
Só pra fazer ninar
O meu querido amor

 E meu canto falará
De alegrias e paisagens
De todas as possibilidades
Só de encontros e chegadas.

 Cantarei um mundo bom
Onde todas as sombras
Não encobrirão a luz do azul
Apenas descansarão os olhos fiéis.

 E este meu canto
Falará de saúde e vitórias
De sorrisos, vivas e glórias
Caminhos abertos para o meu bem.

E a justiça triunfará
E o amor sempre vencerá
Porque só bondade e pureza
Guiarão a todos nós.